Thursday, January 8, 2015

Estou viva e tudo mudou!

Tem um bocado de posts que ainda quero escrever sobre a gravidez. Quero registrar muita coisa por aqui, mas vou começar pelo fim, já que as emoções ainda estão cruas.

O terceiro trimestre veio com suas próprias complicações, uma delas é que o pandinha não se encaixou na posição correta: a cabeça dele estava para cima. Optei por fazer um procedimento para virá-lo, mas não pude fazê-lo, porque durante o monitoramento pré-procedimento, o coração do meu pequeno desacelerou algumas vezes e vimos que meu líquido amniótico estava baixo, portanto não era seguro tentar virar o pandinha. 

Como Sr. Panda estava na posição errada, nós sabíamos que a cesárea ia ser a forma que ele ia vir ao mundo e minha cesárea estava agendada para o dia 5.01.2015, pois minha médica não queria que eu entrasse em trabalho de parto e colocasse estress no meu corpo. Por conta da baixa de fluído e o coração do pequeno que deu um sustinho, eu tive que passar a ir no médico dia sim dia não para monitorar o coração dele e medir o nível do meu fluído amniótico. Isto tudo começou no dia 17.12.2014 e neste dia eu passei a ter certeza que meu pequeno viria antes do programado, eu só não achava que seria poucos dias após o dia 17 e da forma que foi.

Fora o estress da própria gravidez e dos problemas da reta final, minha família e eu estávamos (estamos) passando por vários problemas, fora o câncer do meu pai, então posso dizer que o terceiro trimestre foi uma montanha russa emocional por milhões de motivos, mas acredite, nada perto do que ainda estava por vir. 

Meu aniversário é 19.12, e até rolou umas apostas se pandinha viria para roubar meu dia, mas ele respeitou o aniversário da mãe e ficou quietinho rsrsrs 

No dia 21.12.2014 eu acordei com uma das notícias que qualquer expatriado tem medo de ouvir, meu pai havia sofrido um Infarto Agudo do Miocárdio e estava em coma. Meu pai, havia morrido por 25 minutos e após o ressuscitamento, estava em coma.

Eu estava grávida de 37 semanas quando recebi uma das piores ligações da minha vida. Eu e meu marido (que felizmente estava em casa comigo) tínhamos como quase certo que meu pai não iria aguentar, por isso queríamos viajar para eu poder estar no Brasil. Uma grávida de 37 semanas que precisa de constante monitoramento, você como obstetra deixaria viajar? Pois é, minha obstetra também não me deixou ir.

Passei a fazer o que era possível naquele momento, falar com minha mãe para assegurá-la que eu estava bem, o bebê estava bem e que eu precisava de notícias constantes, e quando não estava no telefone, chorava compulsivamente. Viva os hormônios da gravidez. 

Meu pai estava na UTI, em coma e estavam tentando estabilizá-lo, isto tudo ocorria em um hospital que sei que não é bom. Tudo isso junto, fez com que meu nível de tensão fosse lá para o céu. Eu comecei a sentir contrações, mas elas eram espassadas. Tentei controlar meu estress para não afetar muito meu pequeno, mas admito que foi bem difícil.

Na madrugada do dia 22, eu acordei com vontade de fazer xixi e quando levantei, me molhei toda. Você sabia que apenas 10% das mulheres que estão grávidas neste país estouram a bolsa antes de já estarem no hospital no final do trabalho de parto?! Eu sabia :-) O que vemos nos filmes, normalmente só acontece em filme mesmo, então quando me molhei so acordar, eu me induzi a pensar que era urina, apesar de não cheirar a urina. 

1h30min após me molhar toda pela primeira vez, eu precisei ir ao banheiro novamente e um jato mais forte veio. Não havia mais dúvidas na minha cabeça, mesmo com a baixa probabilidade e de eu estar com 37 semanas, minha bolsa havia estourado. Meu pai estava em coma e eu estava trazendo o neto dele ao mundo.

Eu não fui imediatamente para o hospital, eu fui tomar banho, secar meu cabelo e finalizar minha mala. Depois que estava pronta, acordei meu marido para ele se arrumar. Ligamos para o hospital e avisamos tudo que havia ocorrido, obviamente eles mandaram eu ir para lá.

Cheguei no hospital e minhas contrações estavam mais forte e em intervalos menores. Isso era 4:30 da manhã. Eles testaram o líquido para ter certeza que era fluído amniótico e deu positivo. Começamos então o preparo para a minha cesárea. Minha pressão arterial estava mega alta, então me testaram para pré-eclâmpsia, que deu negativo. Minhas contrações e o coração do meu pequeno começaram a ser monitorados. As contrações estavam aumentando cada vez mais e ficando em intervalos cada vez menores. Lembra que a ideia era eu não entrar em trabalho de parto? Pois bem, não apenas entrei em trabalho de parto como a coisa todo estava progredindo rapidamente. 

As 6 da manhã eu fui levada para a sala de operação. Enquanto eles me levavam na maca, minha irmã ligou para avisar que meu pai havia saído do coma. Eu entrei em cirurgia com esperanças e eles lá no Brasil passaram a se preocupar também comigo que estava para trazer nosso pandinha ao mundo.

As 6:52 da manhã meu menino chegou. Como descrever o sentimento de quando seu filho sai de dentro de você? Acho impossível! Por aquele momento, quando meu marido me avisou que eles haviam tirado meu pequeno, eu só pensava nele! Na felicidade estampada no rosto do meu marido. Nas lágrimas que caíam dos olhos dele e ele nem percebia. Imediatamente, meu bebê foi colocado no meu peito. Eu virei mãe! Sim, o processo começa na gravidez, mas se concretiza com o seu bebê ali nos seus braços! Ele tão pequenino, estava ali chocado com tudo que havia passado e eu e o pai dele, chorando de felicidade!

Saí da sala de operação com meu pequeno nos braços, uma política que felizmente temos aqui no hospital que tive meu bebê. Não importa que o parto foi cesárea, mãe e bebê passam suas primeiras horas pele com pele, pequenino recebendo o peito! Imediatamente marido ligou para minha família. Meu pai estava respondendo ao tratamento, passei a acreditar piamente que o meu bebê iria conhecer o único avô que ele tem.

E foi assim que em menos de 24 horas um dos meus piores pesadelos parecia tomar forma, meu pai lutando por sua vida; e uma das maiores felicidades da minha vida se concretizou, meu sonhado pequeno estava em meus braços. 

Vocês sabem que não sou exatamente religiosa, mas milagre é a única palavra que consigo usar para descrever o fato que meu pai sobreviveu e está em casa. Suas faculdades mentais estão intactas, um milagre para quem morreu por 25 minutos. Ele não lembra muito do que aconteceu, só quando ele sofreu o infarto em casa e depois já acordando no segundo hospital. Alguns dias foram deletados da cabeça dele, mas não fazemos questão destes dias. 

Meu pequeno chegou antes do esperado, de uma forma dramática. Fez sua entrada neste mundo do jeito que ele quis. Meus dias são muito diferentes do que jamais foram. Sim, ainda estamos no período de adaptação, deprivação de sono e luta para estabelecer as mamadas, mas uma felicidade sem fim reina aqui em casa. 

Minha família tem um novo membro, um membro que eu, marido e Lua esperávamos ansiosamente e meu pai continua aqui, pronto para conhecer o novo neto.
 
Fonte: Arquivo Pessoal