Wednesday, August 5, 2015

Amamentação



Esta semana estamos celebrando a “Semana Mundial de Aleitamento Materno,” e estimulada por uma amiga querida, resolvi escrever o meu relato sobre a minha história de amamentação. Esta história é divida em muitas fases. Inicialmente, eu pretendia falar apenas da volta ao trabalho quando se quer fazer aleitamento materno exclusivo, mas decidi que seria um post muito incompleto. Eis que então decidi escrever este post enorme com a MINHA HISTÓRIA desde o começo.

Assim que decidi engravidar, fiz como a maioria das mulheres, mergulhei de cabeça no mundo da maternidade. Ávida leitora que sou, lí de tudo que cerca e faz parte deste mundo. Lí artigos científicos, livros, revistas, reportagens, sites especializados, blogs, etc. Lí histórias maravilhosas e outras tristes sobre parto, relacionamento pais e filhos, mãe e pais, avós. No entanto, um assunto que achei fortemente negligenciado foi a amamentação. Sim, é quase unânime que você deve amamentar seu bebê, mas muito pouco se fala além desta orientação. Lí pouquissímos relatos pessoais sobre amentação. Então, parti para o pressuposto de que não havia muito do que se falar sobre o tema. Eu não poderia estar mais equivocada. 

Como comentei ali em cima, eu lí muito sobre tudo, inclusive o que consegui achar sobre amamentação. No fim da gravidez, também fiz um curso de lactação e isto me deu a falsa sensação de que eu estava preparada. Lição da maternidade para mim: não importa o quanto você se prepara, você nunca está preparada para ser mãe. 

Quem me acompanhou durante a gravidez sabe que nada foi fácil. Eu tive praticamente todos os sintomas clássicos que as pessoas comentam e outros nem tão clássicos. Por exemplo, quantas grávidas vocês conhecem que ficou com metade do rosto paralisado?! Talvez eu seja a primeira da sua lista :-)

Enfim, nada foi fácil e se você já leu meu blog, sabe que entrei em trabalho de parto com 37 semanas enquanto meu pai estava em coma lá no Brasil após sofrer um infarto agudo do miocárdio. Preste bem atenção, não estou dividindo estas coisas para que as pessoas tenham dó de mim. De forma alguma. Eu estou contando estas partes para que minha frase seguinte faça muito mais sentido e tenha o impacto que merece. Lá vai: Apesar de tudo que passei durante as 37 semanas de gravidez adicionado a todo o drama do parto, a parte que ainda considero mais difícil nesta minha história, ainda foi a amamentação!!

Após sair da minha barriga, meu pequenino veio direto para o meu colo. Fizemos nosso pele com pele e ele lindamente pegou o meu peito e sugou com vontade. Foi lindo. Foi mágico. Eles fizeram os primeiros cuidados do recém nascido e o devolveram para o meu colo. Assim fomos do centro cirúrgico para o centro de recuperação. Coladinhos um no outro. Lá no centro, uma ótima enfermeira veio nos auxiliar com a amamentação. Ela repassou comigo posições para segurá-lo, ângulo da cabeça e abertura de boca e a admiração do "apesar de prematuro, ele está fazendo muito bem o trabalho de sucção." Fiquei 36h no hospital após o parto. Tive visita da consultora de lactação e ajuda da enfermeira no quesito mamadas, ainda assim, quando fomos para casa e as dificuldades começaram a se acumular.

Meu pequeno foi circuncidado no primeiro dia de vida e um dos cuidados necessários é que se coloque muita Vaselina na fralda. Por conta de toda essa Vaselina, nós tivemos a impressão que meu pequeno não fazia xixi. Aí veio o primeiro baque para estremecer minha segurança: "se ele não estiver fazendo xixi vamos ter que suplementá-lo com leite artificial." Estava determinada a não deixar isso acontecer, então passei a acordar meu bebê em intervalos bem curtos para ele mamar. Porque tem esta também, bebês prematuros são ainda mais dorminhoco e super difíceis de se manter acordados durante mamadas.

Após 5 dias de colostro, meu leite desceu. Mães por aí sabem o que isso significa, ingurgitamento. Meus peitos ficaram enormes. Duros. Doíam absurdo e meu bebê passou a ter dificuldade na pega. 

Em uma das visitas ao pediatra (meu pequeno teve várias nos primeiros dias de vida), descobrimos que nosso bebê não estava ganhando peso e a icterícia dele estava piorando. Passamos a ir ao médico a cada dois dias. Fizemos exames de sangue. Os exames voltaram normais, mas chegou o momento que meu bebê não só não ganhava peso como ele começou a perder.  Felizmente, minha pediatra é pró-aleitamento materno e ao invés de me dizer para introduzir leite artificial, ela me ensinou a fazer uma sonda com seringa e utilizar meu próprio leite para suplementar. Após cada mamada, passamos a suplementar o pequeno com mais 30mL do meu leite se utilizando da sonda de seringa. O possível problema para ele estar perdendo peso: meu bebê não sabia mamar. A prova: meus mamilos com hematomas, sangrando, com vários cortes; meus gritos de dor cada vez que ele sugava no meu bico.

Um monte de gente neste momento pode dizer: se sofria tanto, por que não passou a dar mamadeira? Minha resposta é: porque eu escolhi dar de mamar no meu peito e decidi não introduzir nenhum bico artificial na vida do pequeno. Sem chupetas. Sem mamadeiras. Não queria dar espaço para possível confusão de bicos. Afinal, meu pequeno já tinha problemas. Foi minha escolha e fiz o que achei certo naquele momento para continuar com a minha escolha.

Então vamos a minha rotina após apenas duas semanas com meu bebê: o acordava de duas em duas horas; ele mamava no peito; eu bombeava leite; dava mais 30mL de leite na seringa; bombeava mais leite para criar estoque para poder voltar a trabalhar.

Felizmente meu bebê começou a ganhar peso e aos poucos paramos com a suplementação. Pequenino estava aprendendo a mamar. Aí veio a outa parte da minha história: moro nos EUA, onde não existe licença maternidade. Eu fiquei com meu bebê em casa por 9 semanas (sem salário). Eu tive que voltar a trabalhar quando ele não tinha aprendido completamente a mamar e muito menos havia aprendido a tomar leite no copo. 

É muito, muito difícil voltar a trabalhar com um recém-nascido em casa. Não é nada fácil voltar a trabalhar quando você ainda está no começo do processo de adaptação desta nova vida. Não é fácil ter que interromper, por um período diário, o processo de aprendizado da amamentação. Felizmente, eu trabalho meio período, mas mesmo este meio período é uma tortura quando o seu filho ainda não aprendeu a mamar direito. Quando ele acabou de começar a recuperar todo o peso que havia perdido. Quando ele ainda não fazia a mínima ideia de como beber leite em um copinho.

A ideia de deixar o seu bebê que ainda nem havia aprendido a mamar com outro cuidador, foi dolorida. Uma ideia ainda mais dolorida quando este outro cuidador é um estranho, pois não tivemos família por perto no nascimento do pequeno. Nosso plano inicial era que meus pais viriam para ficar quando estivesse para voltar para o trabalho, mas o ataque cardíaco do meu pai meio que interferiu com estes planos.

Manter a amamentação exclusiva quando se volta a trabalhar é um desafio que requer muita disciplina e força de vontade. A verdade é que muito se fala sobre amamentação exclusiva até o sexto mês de vida do bebê, mas na prática, você não encontra muito amparo nas leis para que isto ocorra de fato. Volta-se a trabalhar muito antes dos bebê completar 6 meses de vida. Aqui nos EUA, hoje existe uma lei que requer que as empresas deem intervalos e espaço para as mães que amamentam poderem bombear leite, mas a verdade é que depende da sua linha de trabalho, dificilmente você vai conseguir este tempo. Eu trabalho em laboratório, em nenhum momento eu tive um tempo exclusivo da minha agenda que tenha sido direcionado a bombear. Não, enquanto eu passava laudo para o computador, eu estava lá com minha bombinha e sutiã de bombear para retirar leite. Aliás, amo meu sutiã de bombear e ele tem um papel mega importante nesta minha vida de leiteira J.

Enquanto estava nesta vida de dificuldades, encontrei grupos online sobre amamentação. Descobri entre várias amigas o quanto foi difícil amamentar para elas também. Curiosamente, apenas duas amigas me falaram sobre os possíveis problemas antes de eu estar neles. Após me jogar neste mundo de amamentação de todas as formas possíveis, eu aprendi muito e tristemente, aprendi que muita mãe por aí acaba não conseguindo amamentar simplesmente por que faltou orientação. Há tanto mito relacionado com a amamentação. Mitos que eu mesma acreditava, sobre leite secar, sobre baixa produção, sobre leite não ser suficientemente forte para o bebê... é muito triste saber que profissionais que deveriam auxiliar as mães, na verdade não tem o conhecimento para orientá-las a conseguir o que elas escolheram e repassam os mitos e informações equivocadas.

Faz 7 meses que amamento. Estamos em um período que chamo de lua de mel. Amo amamentar. Amo nossa troca durante a amamentação. Lutarei para que esta troca dure o máximo possível. Eu digo com todas as letras que não teria conseguido chegar onde estou hoje sem a ajuda de diversas pessoas. O principal que aprendi nesta minha história é que amamentar com sucesso não é algo que se faz sozinha. Tive a felicidade de encontrar pessoas incríveis que me ajudaram nesta jornada. Que confidenciaram sua história a mim. Espero que dividir a minha história possa acender uma luzinha na vida de alguém que passe por algo parecido neste momento.

É importante lembrar que ninguém é obrigado a amamentar. Não existe “menos mãe.” Cada um sabe de suas dificuldades. No entanto, é importante lembrar também que muitas vezes, as mães por aí tiveram a orientação errada e por isso não conseguiram amamentar. Por isso, questione, questione muito e boa sorte!