Thursday, February 1, 2018

Descontruir é importante

Qualquer conversa sobre programas sociais e classes sociais, vai sempre contar com 4 palavrinhas: meritocracia, privilégios, sorte e oportunidades. Elas aparecem com ideias contextuais bem diversas dependendo exclusivamente de quem se utiliza delas, mas há o contexto cultural delas que está enraízado na nossa sociedade e é dentro deste conceito comum que vou explorá-las neste post.

Privilégio é algo mais complicado de se perceber do que imaginamos. Nossa sociedade gira em torno da utópica meritocracia. Escutamos o tempo todo que se lutarmos o suficiente, é possível chegar onde quisermos. Ouvimos o tempo todo que se a oportunidade não aparecer, temos que criá-la e se alguém falar que outra pessoa teve sorte, o alvo da sorte fica puto, porque a sorte anula meritocracia. A gente cresce ouvindo as histórias incríveis de superação econômica e social das pessoas. A gente escuta a história do Sílvio Santos que era engraxate, escuta a história da Oprah Winfrey, filha de empregada doméstica, abusada sexualmente quando criança e que hoje é uma das mulheres mais poderosas e influentes dos EUA; vira e mexe, escutamos a história de superação social e ecônomica de pessoas “comuns”. Não lembramos o nome delas, mas lembramos a história: o catador de latinha que pagou a faculdade, o gari que virou advogado e assim vai. Histórias que nos dão esperança, que nos fazem pensar que se eles conseguiram, a gente também consegue. Histórias que reafirmam a meritocracia; o lance de criar oportunidades.

Por conta de tudo isso que escutamos o tempo todo, não é fácil desconstruir a ideia da meritocracia. Não é fácil entender que o conceito de "oportunidade se cria" é quase impossível de se realizar em muitas situações. E é mais difícil ainda reconhecer nossos privilégios, principalmente quando as coisas são tão duras para chegar onde chegamos.

Onde existe privilégio quando sua família passou fome? Onde mora o privilégio quando seu pai trabalhou dois empregos, sendo um em troca de comida? Cadê o privilégio quando você só tinha um banheiro que ficava fora de casa pela maior parte da sua infância? Onde está mesmo o privilégio quando você assistiu seu pai, um policial militar, arrumar o motor do carro fundido na mesa da cozinha, pois ele não tinha dinheiro para pagar mecânico? Como falar de privilégio quando você cresceu sem ter dinheiro para comprar livros ou uniforme para escola? Como alguém quer falar de privilégios quando sua família contava com a benevolência do dono da farmácia que deixava comprar remédio fiado e a sua família tinha uma conta que parecia que nunca ia acabar? É difícil enxergar privilégio quando você acorda as 5 da manhã, pega busão lotado pra ir para o trabalho e só chega em casa meia-noite depois de ir para faculdade. Como posso acreditar que eu tenho algum privilégio quando tudo foi tão suado? Isso me tira o poder de superação. Isso me tira o poder de que fui eu quem mudou minha situação. Pensar em privilégio invalida toda a minha história. Acreditar em privilégios é quase que pensar que eu tive sorte. Absurdo!!

Todas estas dificuldades aí são só uma parte da minha história. Têm muito mais, e mais para o fim, por assim dizer, tem a imigração para outro país. Recebi uma proposta de emprego, construí uma carreira e uma vida em um país longe de tudo que me era confortável. Eu fiz minha vida. 

Então, esta era eu, minha única linha de raciocínio. Demorou para eu descontruir e reconhecer que sim, minha história não seria possível sem muita luta, mas não foi só minha luta que me trouxe para onde estou na minha vida. Muitas coisas foram possíveis por conta de vários privilégios que, ainda que na pobreza, eu tive acesso. Pessoas incríveis surgiram na minha vida e da minha família desde o começo. Oportunidades apareceram em minha vida, por vários motivos, alguns exclusivamente por minha família ser como é, pela personalidade de cada um de nós e a partir destas oportunidades, foi possível que criássemos algumas outras. No entanto, teve oportunidades que apareceram que eu não posso atribuir a nenhuma ação específica, e aí, por falta de melhor palavra, eu acredito que tive sorte. Não foi fácil entender que a sorte não anula todo meu esforço e minha luta. Eu aprendi que a sorte não me faz menos, porque ela não fala exatamente de onde eu cheguei, mas sim sobre como sou excessão e milhares nunca vão ter as possibilidades que eu tive, e não é porque eles são menos do que eu ou lutam menos do que eu, mas sim porque a sociedade é injusta e meritocracia não existe. 

A população mundial hoje é de aproximadamente 7.5 bilhões de pessoas. Metade da população mundial vive com menos de 2.5 dólares por dia. Aproximadamente 1.3 bilhões de pessoas vivem em pobreza extrema. Aí pensamos nestas horas sobre os países super pobres na África ou tantos outros em guerra ou que sofreram desastres naturais e por isso este número é tão alto. E vamos tentar aproximar as coisas ainda mais da nossa realidade individual. A população dos EUA é de aproximadamene 330 milhões de pessoas. Trinta e três porcento da população dos EUA vive na linha da pobreza. O número oficial de americanos abaixo da linha de pobrea é de 14.5%. Em porcentagem, 47.5% da população dos EUA é pobre ou vive abaixo da linha da pobreza. A população Brasileira é de 207.7 milhões de pessoas. De acordo com números do IBGE, 25.4% da população Brasileira vive na linha da pobreza. Os números mais recentes liberados pelo Banco Mundial indicam que 22% da população Brasileira vive abaixo da linha da pobreza. Ou seja, 47% dos Brasileiros são pobres ou vivem abaixo da linha da pobreza. 

Vamos respirar fundo e olhar estes números: tanto nos EUA quanto no Brasil, quase metade da população é pobre ou estão abaixo da linha da pobreza. Um é um país do bloco dos industrializados, o outro é em desenvolvimeto e os números são praticamente os mesmos. E aí nasce a questão mais importante desta divagação: Metade da população destes dois países são preguiçosas e não fazem nada para tentar mudar a situação delas? Como podemos olhar estes números e não perceber que quem mudou a situação social e econômica, são excessões e bem raras e por isso elas aparecem nos jornais e se destacam tanto em nossas memórias? 

Descontruir os conceitos de meritocracia, criar oportunidades, sorte invalidar nossa luta e privilégios, não é sobre nós e sim sobre a sociedade em que vivemos. Precisamos refletir de forma bem crítica sobre as ideias que nos são vendidas como certeza absoluta. Aqui entra uma outra palavrinha que no futuro têm post sobre ela também: empatia. Precisamos entender que os caminhos são diferentes e não necessariamente por conta das escolhas que fizemos, mas sim pelas trilhas que nos foram impostas. Empatia para entender que, na maioria das vezes, não é por falta de muito suor que a pessoa não chegou lá, mas é porque a sociedade não permite que elas cheguem por conta de uma coisa simples, não existe equidade. Quem sabe um dia, não é mesmo? Até lá, acho que vale olhar para o lado usando as lentes da empatia.

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