Somos sempre números

E assim, em uma daquelas situações que você fica pensando em como a vida consegue ser irônica, entrei para a estatística que ninguém quer fazer parte: grávidas que sofrem aborto espontâneo no primeiro trismestre.  Pois é, dias antes do dias das Mães.

Assim como foi com o Pandinha, não contamos a ninguém que eu estava grávida, estávamos esperando passar o primeiro trimestre. De acordo com o Colégio Americano de Obstetrícia e Ginecologia, 10-25% das gravidezes acabam em aborto espontâneo. A maior incidência de aborto espontâneo é no primeiro trimestre e comigo não foi diferente e este é o motivo que esperamos para contar sobre a gravidez na primeira vez e estávamos esperando desta vez também.

Eu tenho diversas amigas que sofreram abortos espontâneo, além de ter trabalhado na área de Reprodução Assistida por mais de 10 anos, ou seja, minha exposição a abortos espontâneos sempre foi bem alta, mas obviamente que isso não faz a situação nem um pouco mais fácil para nós.

Fazia alguns dias que eu estava com sangramentos leves e bastante cólicas, fui ao médico e não tinha batimento cardíaco. Feijãozinho não se desenvolveu como devia. O lado racional sabe de todas as estatísticas, sabe das causas, mas o lado emocional chora a vida que era para ser e não foi. Chora pela perda do futuro. Chora pela dificuldade de processar o que precisa ser processado e explicar para um pequeno de 3 anos o que é o sangramento que a mamãe está tendo e porque ela chora enquanto sangra. 

Estávamos só eu e ele quando o sangramento piorou, já que marido está de plantão esta semana toda. Ele me abraçou, falou para eu ficar melhor e passou o dia agarrado comigo, pois ele sabia que eu estava triste.

Eu entendo que esta é uma das situações que as pessoas não sabem exatamente como reagir. Eu nunca soube reagir quando acompanhei amigas durante suas perdas. Sempre me deixei a disposição mas a verdade é que fora dar o ombro para a gente chorar, o que as pessoas podem fazer ou dizer para melhorar a situação? Ninguém têm este poder; apenas o tempo e nossa determinação de seguir em frente é que tem.


Então estamos aqui, engatinhando para frente e elaborando nosso luto- um dia de cada vez.

Comments

  1. Sem palavras. Um abraço apertado!

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  2. Lamento muito pelo que aconteceu Aline, que seu coracao encontre conforto com o passar dos dias.

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  3. Aline, eu não consigo nem imaginar o que é essa dor. Sinto muitíssimo. Que Deus conforte o seu coração. Um abraço apertado!

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  4. Aline, só agora vi este post. A sua honestidade e abertura são dois grandes motivos pelos quais eu tenho tanto carinho pelo seu blog apesar de andar tão ausente da blogosfera! Lamento muito pela sua perda. Uma coisa são as estatísticas, outra coisa são as emoções... Espero que seu coração recupere com o tempo. E obrigada pela sua coragem de falar sobre o assunto! É algo tão comum, mas continua sendo uma espécie de tabu desnecessário que apenas isola quem passa por isso. Beijos

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