Friday, May 18, 2012

Decisões difíceis

Como já citei por aqui algumas vezes, marido está fazendo a residência médica. Por conta do cotidiano dele, morte e vida, desempenham grande papel nas nossas conversas diárias. Especialmente em meses como o que ele está agora, no setor de UTI adulta.

Em meses mais "complicados" como este, o assunto morte, passa a ser corriqueiro. Conversamos sobre isto durante o jantar, durante nosso "pillow talk", e até mesmo no banho.

O que muita gente considera como assunto mórbido e depressivo, para ele é uma realidade do dia a dia, e como esposa, passa a ser minha realidade também. Acho que seria muito egoísmo da minha parte que não deixasse ele compartilhar o dia a dia dele comigo, só pq é sobre um assunto "pesado". Sinto que nossas conversas são necessárias para ele. O ajuda a aliviar um pouco a tensão. Eu estou sempre disposta a ouvir, seja lá o que for, e se ele quiser uma opinião, estou sempre disposta a falar (Talvez este seja um dos meus maiores defeitos, quase sempre tenho uma opinião para tudo, são rarissímas as situações que fico em cima do muro).

Acho que no fim, trago uma perspectiva diferente para ele. Apesar de me considerar uma pessoa bastante racional, consigo dar uma perspectiva diferente do meio médico, e lógico que por estar "de fora", também consigo ver tudo com uma clareza diferente, tanto o lado dele quanto o da família. Ontem mesmo ele comentou comigo que cada vez que ele conversa com as famílias, ele pensa em mim. Isso pq eu sempre comento com ele sobre esperança e milagres, coisas que ele tem uma certa dificuldade para assimilar.

Por este mês estar sendo o mais pesado dos últimos 3 anos, mesmo que por várias vezes ele tenha trabalhado na UTI, este mês está sendo o primeiro que, em média, uma pessoa está morrendo por dia. Com isso, chegamos a conclusão que era importante conversarmos sobre algo que muitos deixam passar: nossas expectativas e desejos para a hora da nossa morte. Por mais estranho que esta conversa possa soar para muitas pessoas, a grande verdade é que a única certeza que temos nesta vida é que vamos morrer. Não sabemos como ou quando, mas sabemos que vamos morrer. Não é uma questão de viver pensando na morte, mas acredito que precisamos ser práticos para facilitar para quem fica. Marido tem lidado com muitas situações em que a família fica perdida, pq não sabe o que a pessoa gostaria que eles fizessem.

Não estou falando apenas sobre a questão de ser cremado ou enterrado, ou ser que música ou não no velório. O que conversamos foi sobre decisões que talvez precisamos tomar: Manter ou não manter a pessoa conectada em aparelhos? Em que momento devemos parar de tentar ressucitar a pessoa? Vale tudo para me manter vivo?? E qual o real conceito de vida??

São questões complexas, onde se chegar a uma resposta leva tempo, e sempre será extremamente pessoal!!

Recentemente tive um debate sobre vida com um primo meu, por conta da legalização do aborto de bbs anencéfalos no Brasil. Discutimos sobre qualidade de vida, sobre o que consideramos estar vivo ou não, sobre o que se é natural e quando estamos causando sofrimento ao invés de ajuda. Não vou ficar aqui discutindo este assunto, esta não é a minha ideia com o post. O que quero falar mesmo é sobre o quanto evitamos o assunto morte, apesar de ser algo tão real e inevitável para todos. E o quanto deixamos passar a oportunidade de falar aquilo que desejamos, para um momento tão crucial na vida daqueles que ficam.

Eu e marido decidimos escrever um testamento para isto! O testamento para herança e filhos (o destino deles se ambos morrermos), é muito importante, e o de decisões médicas também. Legalmente, quando casados, o esposo(a) têm o direito legal à decisao do que deve ser feito, mas como já vimos várias vezes, em alguns casos, outros familiares entram na justiça para impedir a decisão do parceiro, e com isso, a situação do paciente fica pendente até que a justiça favoreça um dos lados. Para evitar este tipo de situação que eu e marido estamos trabalhando no nosso testamento. O que vai valer será o que desejamos para nós mesmos, e ninguém mais pode interferir!!

Com isto, acredito que o estarei eximindo de qualquer possível culpa que ele venha sentir, e qualquer peso de decisão. Desta forma, acredito também que ele terá liberdade para sofrer sem eu acrescentar mais peso!!

Sei que o post parace meio depressivo, mas a verdade é que marido e eu conversamos isso sem nenhum peso, sem se sentir mórbido. Não estamos planejando nossa morte, muito menos vivendo pensando nela, estamos apenas sendo práticos. Verdade seja dita, por mais doloroso que seja perder alguém, o mundo não pára para o nosso luto. Quem já viveu este tipo de situação sabe. O mundo nos cobra praticidade e racionalidade em uma hora que estas duas práticas são quase impossíveis, por isso, marido e eu decidimos que seria muito mais simples se deixarmos registrado nossa vontade enquanto podemos ser práticos e racionais!! Talvez soe estranho, mas para nós é a decisão mais acertada!

28 comments:

  1. Admiro a decisão de vocês. É um assunto delicado mesmo e que precisa ser conversado entre o casal, vocês estão levando algo a sério com o devido respeito e também consideração. Aplaudo a atitude.
    Eu e meu marido conversamos sobre isto e um sabe qual é a vontade do outro, mas nunca tinha pensando sobre as brigas legais entre famílias, o que infelizmente acontece sempre nestes casos.
    Obrigada por compartilhar este assunto e não foi de forma alguma mórbido. Claro, objetivo e racional.
    Bom final de semana!

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    1. Eliana, eu fiquei meio receosa qndo escrevi este post, achei que as pessoas iam me achar fria!! Obrigada por tirar este peso das minhas costas ;) Infelizmente, nestas horas complicadas, nem todos concordam, e acho a melhor opção deixar tudo registrado legalmente!! É aquela coisa de mal necessário. Bjuss

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  2. Concordo com você!! Nós também conversamos às vezes sobre essas coisas. Acho importante o outro saber o que a gente pensa, pra em caso de necessidade ter um pouco mais de segurança na hora de fazer um escolha.

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    1. Babi, comunicação é tudo né?! Eu e meu marido falamos de tudo, não temos pudores rsrs É como comentei com a Eliana, este tipo de convresa e tornar a coisa oficial, é um mal necessário!! Bjuss

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  3. Eu entendo voce, por mais que ninguem goste de viver pensando na morte, e muito mais facil pensar em uma decisao e desejo para esse momento do que quando acontece e ta todo mundo muito abalado para racionalizar decisoes. Eu ate hoje so expressei verbalmente meu desejo em certas situacoes, mas nunca coloquei num papel, o que lendo seu post me fez pensar que e muito melhor porque assim pode evitar possiveis problemas.
    Beijinhos

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    1. Monique, flor, exatamente. Enquanto a coisa não está acontecendo, conseguimos pensar com calma, e tomar uma decisão mais fiel àquilo que queremos! Olha, se tem uma coisa que mudei muito desde que mudei para o EUA, é de colocar tudo em papel... Tornar tudo oficial. Vejo cada batalha de família que me parte o coração. Tenho certeza que a pessoa não gostaria nunca que a família ficasse tão desuninda em um momento tão difícil. Bjuss

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  4. Aline, sabe que voce tocou em um tòpico deste assunto que eu nunca tinha pensado? Nunca tinha pensando na CULPA que sente quem tem que tomar uma decisao assim, mesmo quando ela foi um pedido do falecido. Tipo... o fato de voce SABER que foi o desejo dele, mas sentir a culpa, tudo ao mesmo tempo.
    Parabens pela atitude de voces!

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    1. Gisa, mto obrigada!! Pois é, infelizmente vejo muita gente se sentindo culpada pelos motivos mais diferentes na hora da morte, então o que eu puder evitar, evitarei :) Bjuss

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  5. Eu sou como você, não tenho problema para falar de morte, pelo menos não da minha. Ainda mais agora que temos filhos considero esse assunto vital por conta dos arranjos e vontades de cada um. A gente até já tem tudo conversado, mas o testamento é o próximo passo. No Brasil quase ninguém faz testamento, que é considerado algo só para os ricos. Aqui, embora apenas metade dos americanos faça um will, essa sem dúvida é uma margem muito maior que a brasileira. Há vários sites que te ajudam a fazer seu testamento. As questões são beeem específicas, mas é porque eles pensam em coisas e situações que a gente nunca pensa, apesar de todos sabermos que ninguém vai ficar pra semente. Espero que o K. não precise ficar muito mais tempo na UTI. Que barra que deve ser! Beijo

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    1. Eli, eu ás vezes dou uma segurada, pq vc já percebeu que eu e o K. não temos mto pudor, e achamos que todo mundo tbm leva tudo na mesma naturalidade que a gente rsr. Para ser sincera, quando morava no Brasil nem pensava nesta coisas de testamento, mas desde que moro aqui, e principalmente depois que meu sogro faleceu, isto é algo que faço questão de ter. Nós acompanhamos minha sogra no advogado para fazer o testamento dela, e na época o K. sugeriu para eles incluirem clausulas a respeito de decisões e vontades médicas. Sei que este assunto ainda soa estranho para mta gente, mas é uma necessidade!! Até o fim deste mês, ele ainda estará na UTI :( Bjuss

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  6. Aline, que post interessante! Outro dia falei pro Dave que gostaria de ser cremada. Não quero escolher onde ser enterrada (no Brasil ou aqui), mas nunca falei isso pra minha família no Brasil.
    Acho que a ideia do testamento é simplesmente maravilhosa. Mas tenho várias dúvidas. Depois que o testamento é preparado, com quem o deixamos? Como provar que ele é real e que ng mudou o que foi escrito por mim?
    A família do meu melhor amigo é toda "de mal" por conta de um testamento adulterado. Acredita? Pois é...

    Olha, fico feliz por vc e seu marido terem essa abertura fantástica. Como é bom ser casada com o melhor amigo, né???

    Beijo p vc e pra Luaaa!

    Rebeca
    xoxo

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    1. Rebeca, olha eu com mais perguntas para vc rsrs Vc quer ser cremada e quer que suas cinzas vá para onde?? Aqui, como a Eliane comentou, esta coisa de testamento é bem difundida. Eu e marido estamos deixando testamento para tudo. No momento estamos apenas fazendo de coisas médicas e tbm do financeiro, mas quando tivermos filhos, o do destino das crianças caso alguma merda aconteça com a gente, tbm será feito. Para nós, estamos fazendo o testamento usando o advogado que fez tbm o da minha sogra. Ou seja, todo o documento é redigido pelo advogado, e além dele e nós assinarmos, tbm contamos com uma testemunha. No nosso caso, nós iremos guardar a original, e deixaremos uma cópia com a família dele e uma com a minha no Brasil.

      Que triste esta história do seu amigo!!! Acho que a melhor forma de evitar este tipo de problema é sempre deixar cópias com a família!! Bjuss

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  7. Menina, voce tem um papel muito importante! Atraves de voce, seu marido desestressa e pode atender melhor as pessoas. É muito legal que voce converse com ele e o ajude nessa parte!

    bjsss

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    1. Muito obrigada, Débora!! Eu e marido conversamos de tudo!! Sempre ajuda a liberarmos nossa tensão!! Bjuss

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  8. Oi ALine, te encontrei através do blog da Eliane!
    Muito interessante este post. A decisão sobre o que fazer no momento da morte é muito difícil e se conversado e documentado antes, tudo fica mais "fácil". Há um tempo atrás nos visitamos uns familiares do meu marido na Alemanha e a prima do meu marido e o marido dela nos contaram que já fizeram testamento (eles tem dois filhos) e caso eles partam antes dos filhos, deixaram documento o que deve ser feito com o corpo e etc... É uma decisão racional e que poupará os que ficam de uma dor ainda maior. Lidar com a morte no dia a dia faz a gente pensar muito sobre a vida. Abs!!

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    1. Olá Sandra, bem vinda ao blog!! Como vc pode ver, sou da mesma opinião que sua amiga!! Acho que tudo que pode ser antecipado para um momento tão difícil, devemos fazer!! Pode soar estranho para muita gente, mas infelizmente, precisamos ser práticos!! Verdade, qndo a morte faz parte do cotidiano, refletir sobre a vida se torna muito mais corriqueiro!! Bjuss

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  9. Oi ALine, te encontrei através do blog da Eliane!
    Muito interessante este post. A decisão sobre o que fazer no momento da morte é muito difícil e se conversado e documentado antes, tudo fica mais "fácil". Há um tempo atrás nos visitamos uns familiares do meu marido na Alemanha e a prima do meu marido e o marido dela nos contaram que já fizeram testamento (eles tem dois filhos) e caso eles partam antes dos filhos, deixaram documento o que deve ser feito com o corpo e etc... É uma decisão racional e que poupará os que ficam de uma dor ainda maior. Lidar com a morte no dia a dia faz a gente pensar muito sobre a vida. Abs!!

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  10. Só quem lida ou já lidou com a morte de perto sabe que é preciso encarar o assunto. Eu já perdi alguém que amava e com ele muitos projetos de vida também se foram. Desde então falo abertamente sobre a morte e quem me conhece sabe da minha necessidade de não fazer de conta que ela existe porque na minha vida ela já se fez presente deixando marcas. Não acho mórbido nem depressivo. Temos seguros, testamentos, planos A, B e C. Acho sensato e maduro! E o seu papel é fundamental para equilibrar o seu marido. Ele é um homem de sorte! Beijão, querida!

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    1. Barbarella, sinto mto pelo que vc passou!! É exatamtne isso que vc falou, a morte é algo tão presente que não faz muito sentido ignorarmos a existência de algo tão definitivo. Eu e marido somos assim tbm, temos seguros e agora estamos trabalhando nos testamentos!!! Mto obrigada, flor, eu e ele vamos nos completando da forma que podemos :) Bjuss

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  11. Oi Aline!!

    Sou eu, sabrina!!! obrigada pelo comentário! Gostei da dica das recepcionistas, acho super válida :D Vou colocar em prática :)

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  12. Aline, adorei esse post! Outro dia, olha que coincidência, Ryan comentou sobre fazer um testamento. Na verdade, estávamos no carro ouvindo um programa de rádio, e o locutor que é famoso por dar dicas sobre como economizar dinheiro, falou sobre isso, e fiquei pensando que é importante. Vcs fizeram muito bem em ter decidido isso.
    Beijão! =)

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    1. Tacia, não é todo mundo que tem o costume de fazer, mas acho que um testamento tanto financeiro, quanto o de cuidado com crianças e de decisões médicas, são super importantes, arrisco a dizer que até necessário!!! Bjuss

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  13. Vida e morte também eh um assunto recorrente na minha área de trabalho, não tao direta quanto com o seu marido, mas mesmo assim...

    E eu não lido muito bem com isso, sabe? Mas tenho aprendido...

    E os pontos que você colocou sao muito pertinentes... E eu ja os discuti com Maridon... Sao assuntos que ninguém gosta de falar, mas que precisam ser discutidos!

    E nisso entram questões religiosas, pessoais e muito profundas... Que so cabe a voces dois resolverem... E bem como voce disse, as vezes vem outro familiar e entra na justica tentando empatar uma decisao...

    Quem melhor do que seu marido para saber o que voce gostaria, nao eh?

    um beijo

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    1. Luana, eu imagino que com o que vc trabalha este assunto acaba sendo recorrente, pq afinal, pesquisas onde o cancer faz parte do tema, a morte infelizmente se torna bem recorrente. Eu particularmente sempre trabalhei com a vida (cliníca de Reprodução Humana). As vezes há abortos, mas são poucos casos!! Eu cresci sendo filho de policial militar, então a morte foi algo que sempre conversamos desde mto cedo, pq tbm fazia parte do cotidiano do mau pai, e claro, ainda sempre viviamos com o risco eminente da morte dele.
      O que vc falou é super pertinente, há tantas atenuances pessoais em um momento como este, que nada melhor que ter este assunto muito bem discutido, e registrado ;) Bjuss

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  14. muito interessante isso...meu marido e eu ainda não conversamos diretamente sobre esse assunto..isso me fez parar pra pensar que realmente é um assunto muito sério e não deve ser evitado. bjss

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    1. Star, bem vinda ao blog!! Marido e eu discutimos este assunto algumas vezes, mas agora resolvemos tornar oficial colocando em um testamento!! Bjuss

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  15. Nossa Aline..que post interessante! Sabe q nunca me passou isso pela cabeça? Tbm, eu ainda vou casar e começar a minha vida..mas essa de decisões médicas eh super importante..vlw pela dica.
    Bjs!

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    1. Pri, normalmente não pensamos mto nestas coisas. Não sei se morasse no Brasil eu pensaria da mesma forma. Minha maior preocupação é com o fato de minha família ainda estar no Brasil, então acho que querer deixar tudo registrado têm mto haver com isso!! Bjuss

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